5. GERAL 30.1.13

1. HISTRIA  O COMEO DA TRAGDIA
2. CRIME  UM ATO DE TRAPAA
3. GENTE
4. ARTIGO  J.R. GUZZO  NAMORANDO COM O SUICDIO
5. VIDA DIGITAL  A REDE DA INVEJA
6. CARREIRA  OS CEOs MAIS JOVENS DO BRASIL
7. SOCIEDADE  ALIANA DA DIREITA
8. MSICA  O BRASIL VIROU SERTO

1. HISTRIA  O COMEO DA TRAGDIA
H oitenta anos, em janeiro de 1933, Hitler tornou-se primeiro-ministro. As circunstncias que o levaram ao poder precisam ser conhecidas para no ser repetidas.
DUDA TEIXEIRA

     O poder nas mos de um partido nico e sustentado na ao violenta de grupos paramilitares, o culto  personalidade do lder, a supresso das liberdades individuais e o controle absoluto da imprensa e da economia so caractersticas dos regimes fascistas, as quais o nazismo levou  sua expresso mais trgica. Guiados pelo austraco naturalizado alemo Adolf Hitler, seus seguidores fanatizados transformaram o estado em uma maquina de matar e lanaram o mundo na guerra mais letal da histria, que levou  morte mais de 70 milhes de
pessoas  6 milhes de vtimas, predominantemente judeus, foram abatidas em campos de extermnio administrados com frrea disciplina e exigncia de produtividade. O produto? Corpos humanos incinerados.
     A tragdia do nazismo comeou a ser montada no aparelho de estado alemo em 30 de janeiro de 1933, h oitenta anos, quando Adolf Hitler se tornou primeiro-ministro. O empuxo social e poltico que o levou ao poder foi alimentado por uma mistura de ressentimento, dio racial, fanatismo, falta de informao e sonho de glria nacional de uma populao desmoralizada pelos termos de rendio da Alemanha derrotada na Grande Guerra, como at hoje os europeus se referem ao que chamamos de I Guerra Mundial.
     O ressentimento era real e disseminado. A Alemanha foi obrigada a se render em 1918, quando no havia em seu territrio um nico soldado inimigo. Cansados das agresses blicas alems, os vencedores da Grande Guerra (Frana, Inglaterra, Rssia e Estados Unidos) decidiram fazer terra arrasada da economia da Alemanha. Como sempre, quem mais sofreu foi o povo, vergado pelo desemprego, pela fome e pela hiperinflao. Em 1918, com 3 marcos alemes se comprava 1 dlar americano. Trs anos depois, a taxa de converso estava em 1200 marcos por dlar. O dio racial foi direcionado aos judeus, escolhidos como bodes expiatrios da misria. A falta de informao veio com a destruio da imprensa livre e o monoplio das comunicaes pelo mais poderoso instrumento de propaganda, o rdio. Mais tarde, pretextando o estado de guerra, os nazistas confiscaram aparelhos domsticos de rdio e distriburam  populao milhes de outros sem dial, que s pegavam as transmisses oficiais. Hitler explorou a nsia dos alemes por mais territrio. Sem tradio colonial, o espao vital, o Lebensraum, tinha de ser conquistado pela Alemanha na prpria Europa.
     As circunstncias histricas aproveitadas pelo nazifascismo para crescer e abafar todas as demais foras polticas no podem se repetir no mundo de hoje. Mas, como a natureza, que abomina o vcuo, o fascismo se infiltra em toda brecha deixada pelas instituies democrticas. Diz a historiadora americana Wendy Lower, da Universidade Claremont McKenna, na Califrnia: Fenmenos polticos que exploram o sentimento de vitimizao, o nacionalismo exacerbado e a escolha de um bode expiatrio podem ressurgir a qualquer momento. A diferena  que hoje nenhum ditador pode se dar ao luxo de adotar um projeto de expanso territorial. O custo poltico  impagvel. Mas o expediente de Hitler de usar a democracia para chegar ao poder e depois destru-la tornou-se uma manobra clssica no sculo XX e continua sendo tentada nos dias de hoje.
     O ovo da serpente nazista foi chocado na democracia. O regime que viu a ascenso do nazismo foi moldado pela Repblica de Weimar, nome da cidade onde uma assembleia se reuniu para criar uma democracia parlamentar com uma cmara alta e outra baixa, o Reichstag. Todos os homens e mulheres com mais de 20 anos ganharam o direito de votar, o que colocou o pas na vanguarda do sufrgio feminino. As Foras Armadas foram subordinadas ao Poder Legislativo. Entre os direitos previstos pela Constituio de Weimar estava a proibio de demitir algum do servio pblico por questes de gnero, religio ou poltica.
     Mas a Repblica de Weimar ficaria conhecida mesmo pelas agruras econmicas derivadas dos termos da rendio na Grande Guerra, o Tratado de Versalhes, assinado em junho de 1919. No acerto imposto pelos vitoriosos, a Alemanha perdeu 13% do territrio, 70% da produo de ferro e um quarto das minas de carvo. O acordo exigia o pagamento, principalmente  Frana e  Inglaterra, de uma enorme soma em marcos alemes a ttulo de reparao de guerra. Um jovem mas j reputado economista ingls assessorou os mandatrios de seu pas nas negociaes que levaram  redao final do tratado. Ele se chamava John Maynard Keynes. Em pouco mais de um ms, ele escreveu um livro que viria a se toranr um dos maiores sucessos de seu tempo. As Consequncias Econmicas da Paz. Na obra, Keynes previu que o esmagamento da Alemanha pelas exigncias dos aliados criaria naquele pas as condies para o surgimento de uma fora poltica salvacionista tendo  frente um lder carismtico. De certa forma, Keynes previu a ascenso de Hitler como resultado do que ele chamou famosamente de Paz Cartaginesa, referncia aos termos catastrficos impostos a Cartago pelos vitoriosos romanos em 146 a.C.
     A Alemanha entrou em parafuso. Radicais da esquerda e da direita culpavam os membros do Parlamento pela escassez e hiperinflao. Foram muitas as tentativas de aproveitar o caos para fazer uma revoluo bolchevique, inspirada na Rssia de 1917. Hitler projetou-se nesse caldo poltico em ebulio cavalgando uma ideologia que atendia aos anseios de diferentes setores da sociedade. Aos empresrios, ele prometia impedir a revoluo comunista. Aos humilhados pelo Tratado de Versalhes, dizia que o pas deveria expandir seu territrio e cancelar o pagamento das reparaes de guerra. Para os desiludidos com a crise econmica, discursava contra os judeus capitalistas. Para os jovens, prometia empregos.
     Hitler era filiado ao pequeno e fascista Partido Alemo dos Trabalhadores desde 1919. No ano seguinte, ele refundou a legenda, acrescentando ao nome o termo Nacional-Socialista, de onde vem a corruptela nazista. Em 1923, tentou o famoso e fracassado Putsch na cervejaria Brgerbrukeller, em Munique. O golpe visava a aprisionar os lderes regionais da Baviera que estavam reunidos na cervejaria. A regio se sublevaria contra o poder central e deixaria de pagar sua parte nas reparaes de guerra. Por mais pattico que tenha sido, o Putsch de Munique rendeu a Hitler a notoriedade nacional que ele procurava. Em um julgamento em que os juzes mal conseguiam esconder sua simpatia pelo nazismo e por seu lder, Hitler foi condenado a cinco anos de priso. Cumpriu nove meses, que gastou escrevendo Mein Kampf (Minha Luta), livro autobiogrfico em que expunha o dio aos judeus e pregava a expanso territorial da Alemanha. Os nazistas, assim como os comunistas, nutriam um rancor pelo cosmopolitismo, pelo liberalismo, pelos imigrantes e pela ideia de que direitos humanos so universais. So valores que, na Alemanha, foram personificados nos judeus, diz o socilogo Demtrio Magnoli.
     Os nazistas entenderam que o antissemitismo, embora disseminado, no rendia votos. Nas campanhas eleitorais, o dio racial foi abrandado, dando a muitos a falsa esperana de que a obsesso pudesse desaparecer. Afinal, a comunidade judaica representava menos de 1% da populao alem. Havia uma crena de que Hitler no poder seria pragmtico e esqueceria o assunto, diz o historiador israelense Guy Meron. Foi um doloroso engano. O dio racial permaneceu guardado como brasa dormida para se reavivar como fogo depois que os nazistas chegaram ao poder.
     Em sua escalada final, o partido nazista conseguiu pouco mais de um tero dos votos nas eleies parlamentares de 1932, e Hitler arrancou o cargo de chanceler do respeitado mas debilitadssimo presidente Paul von Hindenburg. No seria mais possvel conter Hitler. Aproveitando as circunstncias pouco claras de um incndio no Reichstag, Hitler culpou os comunistas e Hindenburg deu-lhe poderes ditatoriais para combater o que lhe foi vendido como uma insurgncia bolchevique. Hindenburg morreu logo depois. Seu funeral solenemente prussiano foi usado pelos nazistas como a primeira demonstrao pblica do poder de Adolf Hitler. Na mesma noite milhares de nazistas com tochas nas mos marcharam por Berlim e se aglomeraram defronte ao edifcio onde ficavam os aposentos de Hitler. Ele chegou  janela, acenou, sorriu meio nervosamente. Comeara a maior tragdia da histria contempornea.

SEM RAA
A ideia da raa pura no foi inventada pelos nazistas, mas eles se apropriaram dela: No pode fazer parte do povo seno aquele que tem sangue alemo. Foi preciso embasar a crena em critrios cientficos, e os nazistas recorreram  antropometria. Mediam-se a largura do nariz e o tamanho da cabea para, assim, distinguir os parmetros caractersticos dos arianos dos de outras raas. Seis meses depois de Hitler chegar ao poder, ele promulgou a lei eugenista que dava ao estado o direito de esterilizar cidados considerados geneticamente defeituosos. At o fim do regime, cerca de 400.000 pessoas passaram pelo procedimento. O conceito de raa est, hoje, totalmente desmoralizado. Cerca de 85% da variao gentica do DNA humano ocorre entre indivduos, no entre grupos tnicos. Pode haver diferena gentica maior entre dois indivduos brancos do que entre um branco e outro negro. Todos os 7 bilhes de habitantes do planeta descendem de um mesmo grupo de algumas dezenas de antepassados  e, a se fiar nas pesquisas, de uma nica me, a Eva Mitocondrial, chamada assim por se ter chegado a ela pelo estudo da evoluo da mitocndria, organela celular cujo DNA  transmitido s geraes seguintes apenas pelas mulheres.

COM REPORTAGEM DE NATHALIA WATKINS E TAMARA FISCH


2. CRIME  UM ATO DE TRAPAA
O diretor do Bolshoi, de Moscou, que sofreu um ataque com cido j pensa em voltar ao trabalho. Ele no foi a primeira, nem ser a ltima, vtima do jogo sujo nas artes de alta performance.
TATIANA GIANINI

     Uma gota de cido sulfrico  suficiente para abrir um buraco em uma cala jeans. Essa substncia corrosiva queima e destri rapidamente as clulas ao entrar em contato com a pele. H duas semanas, o russo Sergei Filin, de 42 anos, diretor artstico do Bal Bolshoi, um dos principais centros da dana no mundo, voltava para casa depois de uma festa quando um mascarado gritou seu nome no meio da rua. No momento em que o ex-bailarino olhou na direo de quem o chamava, o homem atirou cido sulfrico em seu rosto. Por quinze minutos, Filin se arrastou implorando por ajuda enquanto a substncia corroa sua face. Com as mos, apanhava neve do cho para jogar na pele, na esperana de aliviar o efeito do cido. Mas isso s piorou a situao. Filin sofreu queimaduras de terceiro grau no rosto e no pescoo e pode no recuperar a viso do olho direito. A polcia ainda no descobriu a identidade do criminoso. Esse foi o mais grave caso de sabotagem envolvendo o Bolshoi, mas no o nico. O mesmo esprito vingativo que provavelmente nutria o mascarado j apareceu outras vezes em atividades artsticas altamente competitivas como o prprio bal e em esportes nos quais h um abismo gigantesco entre a vitria e a derrota entre ser o primeiro e ser o segundo colocado.
     Nas coxias dos grandes bals mundiais, onde as decises de um diretor podem impulsionar bailarinos para o estrelato ou conden-los ao esquecimento, casos de disputa so frequentes. Durante o regime sovitico, brilhar nos palcos do Bolshoi dava status e possibilitava viagens ao exterior  um luxo para os cidados comuns. H relatos de bailarinas que serviam como acompanhantes de figures do partido comunista, o que o Bolshoi nega. A competitividade e as disputas entre os funcionrios do teatro continuam intensas. Em 2011, um dos diretores do Bolshoi, Gennady Yanin, demitiu-se depois de sofrer uma campanha de difamao. Fotografias erticas suas foram enviadas a milhares de endereos de e-mail. Em 2003, a bailarina russa Anastasia Volochkova foi demitida por ser considerada muito alta e pesada pela direo do bal. Ela tinha 1,70 metro e pesava 49 quilos.
     As pistas do crime sofrido por Filin apontam para os insatisfeitos com a renovao que ele promoveu no bal. Filin tomou decises polmicas antes da reabertura do Teatro Bolshoi, em outubro de 2011. Contratou para o posto de bailarino principal um americano, David Hallberg, o primeiro dessa nacionalidade a integrar permanentemente a instituio. Essa era uma posio normalmente reservada a profissionais russos. Dias antes do ataque, Filin anunciou vrias promoes entre os cerca de 200 artistas. Os no contemplados torceram a sapatilha. H alguns meses, o diretor recebeu ameaas por telefone, teve os pneus do carro cortados e as contas de e-mail e Facebook hackeadas.
     Duas explicaes psicolgicas tambm podem ajudar a compreender a mente do criminoso. Os esportes e as artes de alta performance, com seus nveis de exigncia sobre-humanos, costumam preencher todo o tempo e a dedicao de seus praticantes, que, com isso, tendem a consider-los como se fossem sua prpria vida. Nessa situao, qualquer um que comece a ganhar mais destaque do que voc pode ser visto como um obstculo  sua identidade e deve ser eliminado, diz o psiclogo americano Mitch Abrams, especialista em competies esportivas. Os momentos de stress podem levar os gnios mais instveis a ser dominados pelas suas inseguranas, perdendo a noo de realidade e a capacidade de fazer um bom julgamento tico.
     Exemplos de trapaas, mais ou menos graves, no faltam. Em 1964, a cantora lrica italiana Fiorenza Cossotto subverteu a partitura e encobriu a voz de Maria Callas durante um dueto na pera Norma, em Paris. Cossotto ignorou o sinal de Callas para parar de cantar e estendeu as notas por mais tempo. Em 1994, a patinadora americana Tonya Harding e seu marido contrataram gngsteres para quebrar a perna da rival Nancy Kerrigan com uma chave de roda. A fratura no ocorreu, mas a leso provocada tirou Kerrigan do campeonato nacional.
     Nem o jogo mais sujo consegue barrar a ambio dos grandes talentos. O russo Filin s pensa em voltar a dirigir o bal. No estou depressivo, disse ele a jornalistas russos, na semana passada. As vezes, eu consigo ver todos os dedos das minhas mos. Isso me d otimismo. Ele afirmou ainda que a agonia do ataque de cido foi menor do que a dor que sentiu certa vez ao danar O Lago dos Cisnes com uma das pernas quebrada. Sua me estava na plateia, e ele no queria desapont-la.


3. GENTE
JULIANA TAVARES. Com Mariana Amaro e Marlia Leoni

CUIDADO QUE ELA ESPETA
Ser chamada de nojenta na rua virou elogio para PALOMA BERNARDI, 27, a prostituta esperta de Salve Jorge, que entrega os segredos das outras, bobinhas, para se dar bem.  sinal do reconhecimento do trabalho, orgulha-se ela, que tambm carrega outros sinais: marcas roxas espalhadas pelo corpo todo, produto das costumeiras cenas de briga. Os olhos verdes e o arzinho de Sophia Loren jovem vem dos avs italianos. A barriga desenhada foi conquistada com esforo prprio, em muitas aulas de dana. Claudia Raia sugeriu que eu no ficasse o ereta, como sou na vida normal, e, sim, curvada, j que sou urna vtima, diz Paloma, eretssima de cinto de castidade, quer dizer, shortinho com tachas, na capa da revista NOVA.

ESCOVA PROGRESSISTA
Barack Obama tomou posse no segundo mandato com o discurso mais liberal, no sentido americano, j feito por um presidente dos Estados Unidos, e qual foi o assunto mais comentado? O cabelo de MICHELLE OBAMA,  claro. A franjinha da primeira-dama no provocou a unanimidade habitual, fora a trabalheira que d alisar, escovar e controlar esse tipo de penteado. Mas todo mundo concordou que ela arrasou na festa noturna com um longo de chiffon vermelho, do mesmo estilista da primeira posse, Jason Wu. Mais comentada, s a cantora BEYONC, com uma obra-prima de apliques cacheados, vestido Pucci e 130 quilates de esmeraldas, entre brincos e anel  tudo dela mesma, no emprestado. O vozeiro com que cantou o dificlimo hino nacional americano tambm  prprio. Quem liga se foi playback?

PARADISE IS HERE
Abandonada pelos pais, me solteira aos 18 anos, viciada em drogas, roubada e espancada pelo primeiro marido, a cantora TINA TURNER chegou aos 73 anos inteira, milionria e completamente estabilizada. Para completar, est prestes a ganhar a nacionalidade sua. Quando isso acontecer, ter de abrir mo da cidadania americana. No consigo imaginar lugar melhor para morar do que aqui, disse Tina, que h quase vinte anos se instalou numa manso num subrbio de Zurique. Divide a paisagem e a paz interior, sem contar a exterior, com o alemo ERWIN BACH, um executivo bonito da indstria musical dezessete anos mais jovem que ela. O casal tambm tem um refgio na Cte dAzur. Nada mau para a menina que nasceu muito pobre em Nutbush, Tennessee.

LUGARES NADA COMUNS
Casais que funcionam como unidade de negcios so um fenmeno comum no mundo dos altamente bem-sucedidos, mas poucos se comparam a David e Victoria Beckham. Ele virou a marca mais poderosa do futebol, mesmo que quase j no jogue. Ela se reposicionou no mercado como estilista de moda. De volta  Inglaterra, esto monetizando os filhos. Romeo, o segundo, virou garotinho-propaganda da marca Burberry. BROOKLYN, 13, o mais velho, quer entrar na equipe juvenil do time Chelsea. Quem sabe um dia no forma a dobradinha Brooklyn-Milan com o filhinho de Shakira e do jogador Gerard Piqu?


4. ARTIGO  J.R. GUZZO  NAMORANDO COM O SUICDIO
     Se nada piorar neste ano de 2013, cerca de 250 policiais sero assassinados no Brasil at o prximo dia 31 de dezembro.  uma histria de horror, sem paralelo em nenhum pas do mundo civilizado. Mas estes foram os nmeros de 2012, com as variaes devidas s diferenas nos critrios de contagem, e no h nenhuma razo para imaginar que as coisas fiquem melhores em 2013  ao contrrio, o fato de que um agente de polcia  morto a cada 35 horas por criminosos, em algum lugar do pas,  aceito com indiferena cada vez maior pelas autoridades que comandam os policiais e que tm a obrigao de ficar do seu lado. A tendncia, assim,  que essa matana continue sendo considerada a coisa mais natural do mundo  algo que acontece, como as chuvas de vero e os engarrafamentos de trnsito de todos os dias.
     Raramente, hoje em dia, os bares que mandam nos nossos governos, mais as estrelas do mundo intelectual, os meios de comunicao e a sociedade em geral se incomodam em pensar no tamanho desse desastre. Deveriam, todos, estar fazendo justo o contrrio, pois o desastre chegou a um extremo incompreensvel para qualquer pas que no queira ser classificado como selvagem. Na Frana, para ficar em um exemplo de entendimento rpido, 620 policiais foram assassinados por marginais nos ltimos quarenta anos  isso mesmo, quarenta anos, de 1971 a 2012. So cifras em queda livre. Na dcada de 80, a Frana registrava, em mdia, 25 homicdios de agentes de polcia por ano, mais ou menos um padro para naes desenvolvidas do mesmo porte. Na dcada de 2000 esse nmero caiu para seis  apenas seis, nem um a mais, contra os nossos atuais 250. O que mais seria preciso para admitir que estamos vivendo no meio de uma completa aberrao?
     H alguma coisa profundamente errada com um pas que engole passivamente o assassnio quase dirio de seus policiais  e, com isso, diz em voz baixa aos bandidos que podem continuar matando  vontade, pois, no fundo, esto numa briga particular com a polcia, e ningum vai se meter no meio. Essa degenerao  o resultado direto da poltica de covardia a que os governos estaduais brasileiros obedecem h dcadas diante da criminalidade. Em nenhum lugar a situao  pior do que em So Paulo, onde se registra a metade dos assassinatos de policiais no Brasil; com 20% da populao nacional, tem 50% dos crimes cometidos nessa guerra.  coisa que vem de longe. Desde que Franco Montoro foi eleito governador, em 1982, nas primeiras eleies diretas para os governos estaduais permitidas pelo regime militar, criou-se em So Paulo, e dali se espalhou pelo Brasil, a ideia de que reprimir delitos  uma postura antidemocrtica  e que a principal funo do estado  combater a violncia da polcia, no o crime. De l para c, pouca coisa mudou. A consequncia est a: mais de 100 policiais paulistas assassinados em 2012.
     O jornalista Andr Petry, num artigo recente publicado nesta revista, apontou um fato francamente patolgico: o governador de So Paulo, Geraldo Alckmin, conseguiu o prodgio de no comparecer ao enterro de um nico dos cento e tantos agentes da sua polcia assassinados ao longo do ano de 2012. A atitude seria considerada monstruosa em qualquer pas srio do mundo. Aqui ningum sequer percebe o que o homem fez, a comear por ele prprio. Se lesse essas linhas, provavelmente ficaria surpreso: No, no fui a enterro nenhum. Qual  o problema?. A oposio ao governador no disse uma palavra sobre sua ausncia nos funerais. As dezenas de grupos prontos a se indignar 24 horas por dia contra os delitos da polcia, reais ou imaginrios, nada viram de anormal na conduta do governador. A mdia ficou em silncio.  o aberto descaso pela vida, quando essa vida pertence a um policial. , tambm, a capitulao diante de uma insensatez: a de ficar neutro na guerra aberta que os criminosos declararam contra a polcia no Brasil.
     H mais que isso. A moda predominante nos governos estaduais, que vivem apavorados por padres, jornalistas, ONGs, advogados criminais e defensores de minorias, viciados em crack, mendigos, vadios e por a afora,  perseguir as suas prprias polcias  com corregedorias, ouvidorias, procuradorias e tudo o que ajude a mostrar quanto combatem a arbitrariedade. Sua ltima inveno, em So Paulo, foi proibir a polcia de socorrer vtimas em cenas de crime, por desconfiar que faa alguma coisa errada se o ferido for um criminoso; com isso, os policiais paulistas tornam-se os nicos cidados brasileiros proibidos de ajudar pessoas que estejam sangrando no meio da rua.  crescente o nmero de promotores que no veem como sua principal obrigao obter a condenao de criminosos; o que querem  lutar contra a higienizao das ruas, a postura repressiva da polcia e aes que incomodem os excludos. Muitos juzes seguem na mesma procisso. Dentro e fora dos governos continua a ser aceita, como verdade cientfica, a fico de que a culpa pelo crime  da misria, e no dos criminosos. Ignora-se o fato de que no existe no Brasil de hoje um nico assaltante que roube para matar a fome ou comprar o leite das crianas. Roubam, agridem e matam porque querem um relgio Rolex; no aceitam viver segundo as regras obedecidas por todos os demais cidados, a comear pela que manda cada um ganhar seu sustento com o prprio trabalho. Comeam no crime aos 12 ou 13 anos de idade, estimulados pela certeza de que podem cometer os atos mais selvagens sem receber nenhuma punio; aos 18 ou 19 anos j esto decididos a continuar assim pelo resto da vida.
     Essa tragdia, obviamente, no  um problema dos estados, fantasia que os governos federais inventaram h mais de 100 anos para o seu prprio conforto   um problema do Brasil. A presidente Dilma Rousseff acorda todos os dias num pas onde h 50.000 homicdios por ano; ao ir para a cama de noite, mais 140 brasileiros tero sido assassinados ao longo de sua jornada de trabalho. Dilma parece no sentir que isso seja um absurdo. No mximo, faz uma ou outra reunio intil para discutir polticas pblicas de segurana, em que s se fala em verbas e todos ficam tentando adivinhar o que a presidente quer ouvir. No tem pacincia para lidar com o assunto; quer voltar logo ao seu computador, no qual se imagina capaz de montar estratgias para desproblematizar as problematizaes que merecem a sua ateno. No se d conta de que preside um pas ocupado, onde a tropa de ocupao so os criminosos.
     Muito pouca gente, na verdade, se d conta. Os militares se preocupam com tanques de guerra, caas e fragatas que no servem para nada; esto  espera da invaso dos trtaros, quando o inimigo real est aqui dentro. No podem, por lei, fazer nada contra o crime  no conseguem nem mesmo evitar que seus quartis sejam regularmente roubados por criminosos  procura de armas. A classe mdia, frequentemente em luta para pagar as contas do ms, se encanta porque tambm ela, agora, comea a poder circular em carros blindados; noticia-se, para orgulho geral, que essa maravilha estar chegando em breve  classe C. O nmero de seguranas de terno preto plantados na frente das escolas mais caras, na hora da sada, est a caminho de superar o nmero de professores. As autoridades, enfim, parecem dizer aos policiais: Damos verbas a vocs. Damos carros. Damos armas. Damos coletes salva-vidas. Virem-se.
 perturbadora, no Brasil de hoje, a facilidade com que governantes e cidados passaram a aceitar o convvio dirio com o mal em estado puro.  um tudo bem crescente, que aceita cada vez mais como normal o que  positivamente anormal  tudo bem que policiais sejam assassinados quase todos os dias, que 90% dos homicdios jamais cheguem a ser julgados, que delinquentes privatizem para seu uso reas inteiras das grandes cidades. E da? Estamos to bem que a ltima grande ideia do governo, em matria de segurana,  uma campanha de propaganda que recomenda ao cidado: Proteja a sua famlia. Desarme-se.  uma bela maneira, sem dvida, de namorar com o suicdio.


5. VIDA DIGITAL  A REDE DA INVEJA
Uma surpresa revelada por pesquisas cientficas: para muita gente, o Facebook  uma fonte permanente de frustrao e angstia.
FILIPE VILICIC

     No clssico A conquista da Felicidade, de 1930, o filsofo britnico Bertrand Russell definiu um sentimento devastador: De todas as caractersticas da natureza humana, a inveja  a mais desafortunada. O invejoso no s deseja a desgraa, como  rendido  infelicidade. Russell entendia a inveja como uma emoo universal, que hora ou outra desperta em qualquer um. Morto em 1970, ele no se surpreenderia  pelo contrrio, provavelmente acharia natural  com o fato de a internet, o meio de comunicao global que define nosso tempo, ser agora uma ferramenta a instigar esse sentimento angustiante. No  difcil entender por que  assim. S  possvel invejar aquilo que se v ou conhece, e a web multiplicou o que se pode saber sobre a vida alheia. Um estudo realizado pela Universidade Humboldt em conjunto com a Universidade Tcnica de Darmstadt, ambas na Alemanha, publicado na semana passada,  a primeira tentativa de medir cientificamente a intensidade dessa emoo na internet. A concluso  espantosa: uma em cada cinco pessoas ouvidas na pesquisa aponta o Facebook como a origem de sua experincia de inveja. Um bilho de pessoas, um stimo da populao mundial, participam dessa rede social. O que fazem nela, basicamente,  colocar fotos, contar detalhes pessoais ou simplesmente fofocar. Sabe-se, pelas pesquisas, que parte considervel desses usurios mantm uma atitude passiva no Facebook. Apesar de passarem muito tempo on-line, limitam-se a seguir o que  postado por amigos que parecem ser mais felizes e saber aproveitar melhor a vida. Nesse cenrio, eles se sentem solitrios, excludos do ciclo de atividade, felicidade e camaradagem on-line das outras pessoas.  nesse caldo de cultura que nasce a gama de emoes angustiantes dissecadas pelos pesquisadores alemes.
     O levantamento, feito com 584 usurios assduos do Facebook, constatou que um em cada trs deles se declara frustrado e triste imediatamente aps se desconectar da rede. Para trs em cada dez, o principal motivo do desgosto  a sensao de que os amigos on-line levam uma vida melhor que a sua. No ranking elaborado pelo estudo, a inveja  o sentimento mais frequentemente associado  frustrao no Facebook. Em segundo lugar, atingindo 19% dos entrevistados, vem a sensao de que suas publicaes no recebem ateno. Em seguida, com 10%, est a solido. Os cientistas alemes descreveram a emoo mais frequente, a inveja, como uma desagradvel mistura de sentimentos por vezes doloridos, causados pela comparao com uma pessoa ou um grupo que possui algo que queremos. Explica a VEJA Hanna Krasnova, autora da pesquisa: No Facebook, compartilham-se 30 bilhes de mensagens todos os meses, e esse ambiente serve como vitrine para o narcisismo e a super-valorizao de conquistas pessoais.  natural que, ao percorrerem esse amontoado de informaes, as pessoas se comparem aos outros. O foco de Hanna  o estudo de sistemas de informao, um campo relativamente novo da cincia da computao.
     Os pesquisadores puderam listar o tipo de publicao que mais instiga sentimentos negativos. Em primeiro lugar figuram comentrios e fotos de viagens e de momentos de lazer. Ao ver as imagens do turismo alegre do amigo, o solitrio que navega pela web sem nunca arredar o p da prpria casa  tomado por um sentimento de inferioridade. Em segundo lugar est a percepo de que os posts dos amigos alcanam grande repercusso. Em terceiro vem o paradoxal sentimento de tristeza diante da felicidade alheia. Aos 21 anos, a paulistana Camila de Freitas est na faixa de idade dos participantes do estudo alemo e passa o dia conferindo atualizaes no Facebook. Recentemente, ela teve uma desagradvel surpresa na rede social. Senti uma raiva imensa quando deparei com fotos de meu ex-namorado beijando uma menina que se dizia minha melhor amiga. Para piorar, os retratos eram de uma viagem a Miami, cidade que sonhava em visitar com ele quando estvamos juntos.
     A infelicidade virtual nasce, muitas vezes, de uma percepo exagerada da felicidade alheia e da prpria infelicidade. Os usurios do Facebook tendem a selecionar e exibir na rede apenas o melhor de sua vida, diz Hanna Krasnova. Quem se sente inferiorizado no percebe que o que v no  a vida real do outro e, sim, apenas uma verso editada de seus melhores momentos. No ano passado, perodo em que estudou moda em Milo, a pernambucana Lase Nogueira, de 24 anos, postava fotos nas quais aparecia sorridente ao lado de colegas. S que o sorriso no refletia minha real situao, conta Lase. Estava triste e me sentia solitria vendo as fotos de meus amigos se divertindo no Brasil. Os amigos brasileiros, que no sabiam disso, invejavam sua vida na Itlia.  o caso tpico de o gramado do vizinho ser mais verde.
     Apesar de ser estigmatizada como um dos sete pecados mortais, a inveja no  um sentimento absolutamente perverso. Ao contrrio, desejar o que j foi alcanado por outra pessoa pode servir de incentivo para melhorar a prpria vida. Mas tambm pode ser o inferno em vida, pois fomenta o rancor e a angstia. Um estudo do Instituto Nacional de Cincia Radiolgica, no Japo, revelou que a rea do crebro ativada pela inveja  tambm responsvel por processar sensaes como a dor fsica. O alemo Christian Maier, da Universidade de Bamberg, que estuda a irritao sentida por usurios em redes sociais, disse a VEJA que a tenso causada pela necessidade de se adaptar s regras de um novo mundo transformou o Facebook numa fonte de stress. No caso da inveja, forma-se um ciclo vicioso. Muitos solitrios recorrem ao Facebook, permanecem muito tempo on-line, mas interagem pouco com os amigos virtuais. O que veem na rede social so pessoas em festas e viagens. Isso faz com que se sintam ainda mais excludos. A frustrao os deixa desmotivados a sair de casa e os prende ainda mais ao Facebook.  o ciclo da rede de inveja. 

O QUE PROVOCA MAUS SENTIMENTOS
Uma pesquisa mostrou as situaes que mais despertam a inveja entre os usurios do Facebook. Abaixo, os tipos de publicao  como mensagens e fotos  que mais instigam a emoo.
Porcentagem dos casos de inveja
1- Viagens e momentos de lazer 56%: Uma foto diante do Coliseu ou um comentrio sobre bons momentos passados em Paris atraem o olho gordo
2- A fama virtual 14%: Algum com poucos amigos pode se incomodar com publicaes alheias que repercutem na web. Ou seja, recebem mais curtidas e comentrios.
3- Felicidade alheia 7%: Muitas pessoas se mordem quando veem amigos sorrindo em fotos ou recebendo muitas mensagens de parabns no dia do aniversrio.
4- O sucesso 5,%: Quem  bem-sucedido na carreira, nos estudos ou em esportes pode provocar a sensao de fracasso em outras pessoas.
5- Sorte no amor 4%: Mudar o status no perfil do Facebook de solteiro para em um relacionamento srio e publicar fotos com cnjuge e filhos.

QUEM  O RANCOROSO ON-LINE
Ele raramente publica em redes sociais  restringe-se a observar a vida alheia  e se morde com a felicidade de pessoas do mesmo sexo e com idade similar. As mulheres se irritam com a beleza das amigas virtuais.

J NO MUNDO OFF-LINE 
Os trs principais motivos de inveja so as conversas sobre viagens, o sucesso profissional e a exibio de talento.

Fonte: estudo Envy on Facebook (Inveja no Facebook), das universidades Humboldt e Tcnica de Darmstadt.

COM REPORTAGEM DE CAROLINA MELO E RENATA LUCCHESI


6. CARREIRA  OS CEOs MAIS JOVENS DO BRASIL
Com estmulo  produtividade e guiada pela meritocracia, uma nova cultura empresarial favorece a promoo rpida dos executivos. Alguns profissionais chegam ao topo antes mesmo de completar 40 anos.
ANA LUIZA DALTRO

     Os mercados de tecnologia, de maquinrio, de painis de madeira e de logstica so extremamente distintos entre si. Mas os executivos de empresas retratados nesta reportagem tm em comum o fato de ter disparado na frente, na carreira, com a rapidez de um velocista e a resistncia de um maratonista. Eles se formaram em escolas de primeira linha, aperfeioaram-se academicamente e chegaram, ainda jovens, ao cargo de CEO (chief executive officer, em ingls, o diretor executivo). Alguns atingiram o topo da hierarquia empresarial antes de completar 40 anos. Para algumas companhias, condenar os executivos promissores a uma ascenso lenta pode desestimul-los, forando-os a buscar trabalho na concorrncia. Deixar clara a possibilidade de promoes rpidas, guiadas por critrios meritocrticos, tambm serve de incentivo ao aumento da produtividade.
     Uma pesquisa recente da consultoria Hay Group com 199 empresas mostrou que 18% delas so comandadas por algum com 45 anos ou menos. Um exemplo  o presidente da companhia area Gol, o executivo Paulo Kakinoff, que assumiu o cargo, no ano passado, aos 37 anos. Anteriormente, ele era presidente da Audi brasileira. J a executiva Adriana Machado, hoje com 41 anos, tornou-se h quase dois anos a primeira mulher a comandar as operaes brasileiras da americana General Electric.
O mercado olha de forma menos precavida para o profissional que tem pouca idade mas est prestes a se tornar presidente ou j se tornou, diz Rodrigo Vianna, diretor para o Brasil da consultoria Hays, que trabalha com recrutamento e seleo em mais de trinta pases. Os jovens promissores se preocupam bastante em se preparar da melhor forma possvel. Alm disso, eles veem a tecnologia como uma aliada, e no como uma barreira. O volume de informaes hoje  enorme, e esses profissionais sabem lidar com essa nova realidade, diz. Presidente da MP Executive Search, empresa do grupo Michael Page focada no recrutamento de altos executivos, Marcelo de Lucca concorda: As empresas esto dando mais espao a lderes jovens. Mesmo sendo excees, os CEOs de pouca idade viram exemplos positivos que incentivam a ascenso de outros profissionais.
     Ningum ignora o valor decisivo da experincia de vida  e profissional  para lidar com determinadas situaes mais desafiadoras. Cabe ao comando das empresas e aos recrutadores de CEOs saber identificar o melhor perfil de presidente para cada momento de uma companhia. Alm disso, alguns setores da economia resistem mais  ascenso de jovens. Nos bancos,  comum encontrar lderes que no s so mais velhos como fazem parte da segunda ou terceira gerao da famlia controladora do negcio. Outros territrios quase exclusivos dos presidentes com 50 anos ou mais so a minerao (com apenas dois dos CEOs jovens listados no levantamento), a siderurgia, a metalurgia e demais setores ligados ao mundo das commodities. Nesses casos, a experincia tem um peso maior. Trata-se de uma rea menos dinmica que a de servios, por exemplo, onde so mais comuns os presidentes jovens. Basta imaginar a situao em que se encontraram os executivos da TIM e das demais operadoras de telefonia mvel aps a resoluo da Anatel que bloqueou as vendas das empresas em julho passado. Ao contrrio do que acontece na indstria e nos setores ligados a commodities, o presidente de uma companhia de servios precisa ter como diferencial a capacidade de tomar decises geis e agressivas, e isso tende a ser uma habilidade mais comum em lderes jovens, diz Vianna.
     O levantamento do Hay Group mostra que em pouco mais da metade dos casos o executivo com at 45 anos tem cinco anos de casa ou menos.  o que acontece com Claudio Fazzinga Oporto, presidente da Eudora, companhia de venda direta de cosmticos pertencente ao Grupo Boticrio. Em 28% dos casos, o jovem presidente est na empresa h dez anos ou mais, como Rodrigo Kede Lima, da IBM, que comeou como estagirio. Hoje, boa parte das grandes empresas opera num ambiente de hierarquia menos rgida, com um maior dilogo entre superiores e subordinados. No raro um profissional ainda em ascenso pode manifestar explicitamente sua ambio de chegar ao topo da empresa, desde que essa atitude seja feita com bom-senso e sem atropelar etapas naturais da carreira empresarial. Sem humildade, a ambio vira arrogncia, aquele mpeto que faz uma pessoa passar por cima de outras para conseguir o que quer, afirma Vianna, da consultoria Hays.
     O salrio desses executivos, incluindo bnus por produtividade, fica na casa dos 2 milhes de reais ao ano, alm dos benefcios.  uma remunerao considervel. Mas no se pode ignorar o preo cobrado pelo sucesso, e ele costuma ser maior para quem chega  presidncia de uma grande empresa em uma idade na qual muitos se casam e tm filhos.  claro que a carreira exige bastante, diz Kede, da IBM. Sempre trabalhei muito, bem mais do que a mdia, mas nunca abri mo de estar com os meus dois filhos e com a minha mulher. Nunca perdi uma reunio de escola. A integrao entre vida pessoal e trabalho precisa existir, afirma o executivo, que admite, no entanto, contar com uma preciosa vantagem competitiva em relao a pessoas normais: dormir apenas 4 horas por noite e acordar descansado.
     A presso por resultados comea bem antes de o profissional chegar ao topo, obviamente. No incio de sua carreira, Oporto, da Eudora, cumpria em uma empresa petrolfera jornadas que comeavam s 5 da manh e no se encerravam antes das 7 da noite. Eu tomava uma garrafa trmica de caf pela manh e outra  tarde. No fim de um ano, a minha mo tremia, conta ele. Eu era muito novo e queria mostrar servio. A cada ano, era recompensado com uma promoo. Mais tarde, trabalhando em uma consultoria nos Estados Unidos, ele dormia pouqussimo, muitas vezes no prprio escritrio. Isso at ter um princpio de infarto, aos 29 anos. O episdio fez com que eu repensasse toda a minha vida. O meu foco na carreira j foi muito mais forte, diz Oporto. Hoje consigo equilibrar melhor os meus vrios papis. No quero que as minhas filhas tenham um pai ausente.

UMA CARREIRA ALADA NO EXTERIOR
Mateus Botelhos  presidente da Sumitomo, empresa japonesa fabricante de equipamentos para a indstria pesada, desde o fim de 2010, quando tinha 37 anos. Formado em engenharia mecnica, logo no incio da carreira ele fez ps-graduao em marketing. Na sequncia, conquistou uma transferncia para os EUA. Em 2001, recebeu a misso de estruturar a operao da Sumitomo na Argentina. Depois retornou aos EUA, at voltar finalmente para o Brasil, j no comando das operaes. Costumo brincar que sa do pas com uma mala e voltei com um continer, conta Botelhas.

O TOPO COMO OBJETIVO
O engenheiro mecnico Rodrigo Kede Lima ingressou na IBM como estagirio em 1993 e nunca mais saiu, mesmo tendo recebido ofertas financeiramente tentadoras. Dono de uma carreira na rea financeira, ele optou por ficar na empresa e, no ano passado, assumiu o comando da subsidiria brasileira. Kede nunca escondeu sua ambio de vir a ser CEO e buscava se aconselhar com seus superiores na matriz americana. Sou extremamente competitivo e adoro me sentir desafiado, afirma. Entre as qualidades para ser um lder empresarial, o executivo destaca como fundamentais a criatividade, o talento para lidar com pessoas e o foco no cliente. A respeito de sua pouca idade para o cargo, comenta: Experincia se adquire no s com o tempo, mas com horas de trabalho e dedicao.

UM CAMINHO NO PLANEJADO
CEO da fabricante de painis de madeira Masisa desde maro, Marise Barroso  jornalista de formao. Ps-graduada em marketing, ela passou por empresas como Mesbla, AOL e Amanco, onde chegou  presidncia em 2009, aos 46 anos. Ao contrrio de muitos executivos de grandes empresas, Marise nunca se programou para ser CEO. Sempre fui especialista nas reas de marketing e vendas. Com a ajuda do ento marido, equilibrar a vida profissional e a familiar nunca foi um dilema. Consigo participar das reunies da escola da minha filha. Acredito ser possvel negociar isso com a diretoria da empresa.

DESDE CEDO, MAQUINISTA DOS NEGCIOS
Eduardo Pelleissone assumiu em julho passado, aos 38 anos, o comando da ALL, dona de mais de 20.000 quilmetros de ferrovias. Administrador de empresas, ele entrou na companhia de logstica aos 24. Pouco antes de completar 30 anos, teve a ideia de criar um sistema de informao que interligasse desde os operadores de trens at os funcionrios que ficavam nos portos, de forma que os gargalos e imprevistos no pegassem os profissionais desprevenidos, prejudicando a operao. A sugesto foi ouvida, implantada e perdura at hoje. Esse foi um dos pontos de partida da sua ascenso profissional.


7. SOCIEDADE  ALIANA DA DIREITA
Noivado formal, com festa e tudo, ressurge cheio de novidades. Com detalhes, e custo, comparveis aos das celebraes de casamento.
DOLORES OROSCO

     A cada gerao, os jovens casais inventam novas maneiras de ficar juntos. Mas quem imaginaria que, na era dos namoros por Facebook, um ritual de acasalamento aparentemente extinto na metade do sculo passado ressurgiria em todos os seus detalhes, como o pedido formal da mo da jovem casadoira, a recepo para familiares e at as alianas na mo direita? As festas de noivado atuais tm tudo isso, mais a roupagem contempornea que transforma celebraes em eventos organizados por profissionais e suas protagonistas principais em estrelas muito parecidas com as celebridades dos tapetes vermelhos.
     Foi vestida como estrela, com sandlias da grife Valentino presenteadas pelos futuros sogros, que a paulistana Tatiana Assad ficou noiva do advogado Adriano Pacheco. A festa para 250 convidados, os mais ntimos, foi animada por um show de ax. Dona de uma agncia de turismo e nascida em uma famlia de cristos libaneses, Tatiana quis fazer tudo segundo a tradio. Sob as bnos de um padre da Igreja Ortodoxa, o resignado noivo se ajoelhou e pediu a mo dela. Queria que fosse na frente de todo mundo, conta Tatiana, que chorou. Depois da festa, ela fez uma peregrinao por lojas de cama e banho para trocar parte dos vinte jogos de toalhas que ganhou.
As noivas so to criativas e tm tantas ideias para decorao e lembrancinhas que o noivado  mais uma chance que elas encontram de ver todos esses sonhos acontecendo, diz Mariana Melo, dona de uma empresa de festas. So muitos sonhos  e muitas ideias  mesmo. Tanto que as mais animadas esto distribuindo seu esprito celebratrio em mais outras cinco festas: o ch de panela, o ch-bar, o ch de lingerie, a despedida de solteira e o casamento civil. Ch-bar, para os desinformados,  uma festa para amigos do casal em que o noivo  presenteado com objetos e acessrios ligados a bebidas. A relativa informalidade do evento no impediu uma noiva de imaginar para seu ch-bar um carrossel parecido com o do famoso desfile de 2008 da Chanel. Foi preciso chamar uma cengrafa. Docinhos em formato da mais famosa bolsa da Chanel so sucesso nas festas pr-casamento.
     J deu para perceber que a quantidade de celebraes exige mimos equivalentes dos convidados. Abre-se uma exceo para a cerimnia civil, o que no alivia muito a sensao de certas amigas mais ntimas de que passaro uma parte de seus anos mais produtivos contribuindo para uma eterna lista de presentes. No caso dos familiares prximos, o vale-presente pode bater nas alturas. Resgatado da cultura americana, surgiu o costume de presentear o noivo com um relgio ou uma caneta de marca importante. Os pais da futura mulher arcam com a conta. J a noiva costuma ser bem mais mimada. Ganhei um Mercedes do meu sogro, uma surpresa maravilhosa, diz a relaes-pblicas Renata Pepe. Corre entre cerimonialistas de So Paulo a histria de uma noiva que queria um anel absolutamente idntico ao de safira de 18 quilates usado pela princesa Diana e, hoje, pela nora que ela nunca conheceu, Kate. Aflito, o noivo pediu ajuda  1 utura sogra, que providenciou a joia. A jovem fez ento uma foto de noivado igualzinha  de Kate e William.
     Na tradio judaica, as mes do futuro casal quebram um prato para simbolizar a importncia do compromisso, mas os amigos da designer Paula Reitzfeld, 25, e Andr Zukerman, 26, dono de uma empresa de leiles on-line, estavam to empolgados na sua festa de noivado que se adiantaram em outro costume: a dana das cadeiras, em que os noivos so levantados pela turma. Para os bem-casados (ou bem-noivados?), Paula escolheu uma embalagem com uma caricatura dela e do noivo. Mulheres que adiam o casamento ou chegam a ele j com carreira bem-sucedida tendem a ser mais festeiras. Todas as minhas amigas j tinham casado. Eu havia sido madrinha em dezessete casamentos, conta a mineira Alice Dias, dona de uma confeco de roupas, 31 anos. Quis fazer todas as festas que mereo. Quem vai discordar? 

MAIS ESPAO PARA INVENTAR
Festas de noivado esto cheias de novidades, algumas no to novas assim.
VESTIDO - Em geral,  curto, mas com cara de roupa de festa, em cores claras como rosa-velho, nude ou gelo. Tecidos rendados continuam a ter muitas adeptas.
ALIANA - o anel tradicional, de diamantes, pode ser acompanhado pela aliana correspondente, menos chamativa, para ser usada no dia a dia.
BOLO - Quase negligenciado nas festas de casamento, nos noivados convencionais  cortado depois do pedido da mo da noiva e tem sabores alternativos.
DOCINHOS - Permitem mais criatividade e at graa; fazem sucesso no momento aqueles em formato de bolsa de grife ou com estampas de zebra ou oncinha.
LEMBRANCINHAS - Mais caras e vistosas do que no casamento, porque o noivado  uma festa para menos convidados. Uma caixinha com docinhos pode custar at 150 reais.

COM REPORTAGEM DE MARILIA LEONI


8. MSICA  O BRASIL VIROU SERTO
VEJA viajou pelo pas com Fernando & Sorocaba, Bruno & Marrone, Zez Di Camargo & Luciano e Michel Tel, alm dos iniciantes Israel Lucero e Las, para mostrar como a msica sertaneja saiu do interior para se tornar a campe nas rdios, nos palcos e at nas baladas frequentadas pela juventude AA das metrpoles.
SRGIO MARTINS, com fotos de LUIZ MAXIMIANO

     Na manh do dia 21 de outubro, o turbo-hlice King Air B200, vindo de Itpolis, no interior de So Paulo, chega ao hangar de uma empresa de txi areo do Aeroporto de Congonhas. A bordo esto os sertanejos Bruno & Marrone, sua assessora, seus secretrios e a reportagem de VEJA. No foi uma viagem tranquila: a caminho de So Paulo, a aeronave enfrentou uma turbulncia e chacoalhou mais que carrinho bate-bate em parque de diverses. O secretrio de Marrone, Jardel Alves Borges (que em 2011 passou trs meses no hospital aps um desastre de helicptero), foi quem mais sofreu com os solavancos. A certa altura, pediu que lhe segurassem as mos, que estavam geladas. Marrone permaneceu em silncio e em momento algum tirou os fones de ouvido que havia colocado em Itpolis. Quando o avio pousou, ele fez o primeiro  e o mais improvvel  comentrio do dia. Aproximou-se do fotgrafo de VEJA, Luiz Maximiano, e deu dicas de qual avio comprar: Este aqui me foi vendido pelo (apresentador) Ratinho. Ele me deu um desconto que nem meu pai daria. Depois, convidou a equipe da revista para jogar bola e comer churrasco em sua fazenda, no noroeste de Gois. Essa informalidade, to rara em artistas de outros gneros musicais,  comum no mercado sertanejo. Nele h uma matutice, uma coloquialidade que contrasta com as cifras milionrias e as performances espetaculosas. E a turma da bota e do chapelo sempre preferiu a praticidade ao luxo. Um avio turbo-hlice  mais barato e menos glamouroso que um jato, veculo predileto das divas da ax music. Por outro lado, pousa em qualquer tipo de pista  algo imprescindvel para quem, no importa o tamanho do sucesso, nunca pode abandonar o pblico dos rinces do pas. So essas particularidades (alm,  claro, da msica) que fazem do sertanejo o gnero mais popular do Brasil. VEJA acompanhou quatro expoentes do filo (Zez Di Camargo & Luciano, Bruno & Marrone, Michel Tel e Fernando & Sorocaba), alm de duas promessas (o cantor Israel Lucero e a cantora Las), em viagens pelo territrio nacional. E pde constatar como e por que o estilo dominou o pas.
     O mercado sertanejo no conhece crise. Em 2011, a indstria fonogrfica comemorou o aumento suado de 8,4% na venda de CDs, DVDs e msica digital em relao ao ano anterior. Embora boa parte desse crescimento se deva ao aumento do poder aquisitivo da classe C, que consome msica sertaneja com gosto, a turma do chapelo h muito no depende exclusivamente de vender discos. Uma das estratgias de divulgao propagadas por esse pessoal, alis,  a doao de CDs. Foi assim que Fernando Fakri de Assis, o Sorocaba, ganhou seu primeiro quinho de fs. Produzia meus prprios CDs, prensava 1000 cpias e distribua nas cidades em que ia me apresentar. No dia do show, todo mundo j conhecia as msicas. A principal fonte de renda dos artistas sertanejos  essa, a apresentao ao vivo. E como eles se apresentam. Um nome do primeiro  e at do segundo  escalo faz entre quinze e vinte apresentaes por ms, com cachs que vo de 200.000 a 350.000 reais  ou at 500.000, dependendo do desespero do cliente. J vi terem de chamar carro-forte para transportar o dinheiro depois do show, diz uma produtora. Os sertanejos investem pesado na produo de suas apresentaes. Zez Di Camargo & Luciano tm a melhor banda do meio sertanejo e utilizam at imagens em 3D (no dueto de Zez com a cantora Paula Fernandes). Sorocaba caminha sobre o pblico dentro de uma bolha, tecnologia celebrizada pelo grupo de rock alternativo Flaming Lips. E, embora a msica sertaneja seja hoje onipresente nas casas de espetculo e boates, os rodeios ainda desempenham um papel crucial na receita dos artistas. Oitenta por cento da agenda de um sertanejo vai para os rodeios, feiras de agronegcio e festas de exposies, diz Marcos Mioto, um dos mais respeitados profissionais do showbiz. No  para menos: todos os anos cerca de 1500 rodeios acontecem no pas, e eles movimentam algo como 2 bilhes de reais. Nos ltimos tempos, as casas noturnas, reduto das classes A e B, tambm se renderam ao chacundum. A pioneira foi a Villa Country, na Zona Oeste de So Paulo. Em uma dcada de existncia, ela no apenas promoveu o namoro apaixonado entre a juventude abastada e o sertanejo, como revelou duplas de sucesso. Victor & Leo comearam aqui, como banda da casa, diz o proprietrio Marco Antonio Tobal Junior.
     Quem ganha muito tem de cuidar para que o dinheiro no evapore  e essa lio os astros sertanejos, no raro vindos de lares humildes, trazem do bero. Caracteristicamente, eles costumam ser tanto astutos quanto conservadores em seus investimentos. Michel Tel e Bruno & Marrone investem em imveis, Sorocaba agencia artistas e tem um estdio de gravao em parceria com Fernando. Zez Di Camargo cria gado ( um dos maiores produtores da raa nelore) e  scio do irmo no ramo de construo. E Leonardo, o ex-parceiro de Leandro, faz de tudo isso um pouco: cria gado, investe na construo civil e empresaria outros sertanejos.
     Neste momento, o universo sertanejo  s alegria, em todas as suas esferas. O consumidor de msica sertaneja, por exemplo,  jovem. A mdia varia de 25 a 44 anos. Gosta de festa, e gosta de beber  como gosta de beber. Sou o maior vendedor de vodca e energtico do pas, jacta-se Rafael Setrak, proprietrio da filial paulistana da discoteca Woods, voltada para a classe AA. A balada sertaneja tambm  ideal para a conquista. Mais de 50% do pblico pertence ao sexo feminino. As composies refletem essa alma festeira. Tudo que eu quero ouvir:/ Eu te amo e open bar, diz Eu Te Amo e Open Bar, de Michel Tel.  uma viso bem diferente de uma, digamos, Desculpe, Mas Eu Vou Chorar, sucesso de 1990 da dupla Leandro & Leonardo, em que o personagem da cano encontrava a amada perdida num copo de cerveja. Os proprietrios das casas sertanejas, no entanto, tm procurado solues para as tragdias causadas pelo lcool. O Villa Country criou um sanduche a preo popular (3 reais) para que o frequentador da boate se alimente e espere o efeito dos drinques passar.
     O sertanejo j foi considerado um gnero menor. As pessoas tinham vergonha de confessar que gostavam, diz Michel Tel. Hoje no  mais assim, nem de longe. Segundo uma pesquisa da Target Group Index, 47% dos brasileiros que escutam rdio o fazem para ouvir musica sertaneja. E a maioria desses ouvintes est dividida entre as classes A e B (36%) e C (52%). No espanta que o gnero domine as preferncias do pblico em So Paulo e seu interior (60% e 61%), ou mesmo em Braslia (56%). Mas  assombroso que responda por 45% delas em Salvador. O sertanejo j  o terceiro gnero mais popular na capital baiana. De acordo com pesquisa da Futura Pesquisa e Consultoria, em 2011 perdia s para a MPB (este, um rtulo que congrega de tudo, de Roberto Carlos a ax) e para o pagode. A msica sertaneja  tambm campe de execuo. Segundo a Crowley Broadcast Analysis, empresa que afere a audincia das rdios, das vinte canes mais executadas no pas em 2012, onze so sertanejas.
     Verdade seja dita, faz tempo que o estilo perdeu o bucolismo da msica caipira tradicional e o romantismo rasgado que o impulsionou na dcada de 90. Hoje ele incorpora influncias do ax baiano, do pop rock dos anos 80, da msica eletrnica e at de um pancado baiano chamado arrocha. Esse terremoto que arrancou o gnero das entranhas interioranas do pas para faz-lo aflorar nas metrpoles tem nome, inclusive: sertanejo universitrio  que  como se batizou a acelerada radical que duplas como Csar Menotti & Fabiano e Joo Bosco & Vincius imprimiram s baladas romnticas a partir de 2003. Assim transformado, mais rpido e percussivo, o sertanejo roubou sem piedade o pblico do pop rock.  msica de balada e cumpre essa funo. Se voc est saindo para a festa, no vai pedir para seu amigo colocar a Nona Sinfonia de Beethoven, diz Marco Aurlio, um dos autores de Camaro Amarelo, sucesso ssmico da dupla Munhoz & Mariano (que, alis, rendeu um sem-nmero de canes de inspirao automobilstica: Vem Ni Mim, Dodge Rum e Fiorino so algumas das que concorrem com o carro de Munhoz & Mariano). Aurlio  um caso de sertanejo da velha gerao que migrou para o universitrio. No passado, ele fez dupla com Mathias (dos tradicionalssimos Matogrosso & Mathias) e Paulo Srgio. Bandeou-se para a ala moderna por razes evidentes. Um dia, cheguei em casa e a luz tinha sido cortada por falta de pagamento. Conclu que estava na hora de mudar de vida. O sertanejo universitrio alterou tambm a cantilena clssica do gnero: adeus, dor de cotovelo: ol, alegria. O papo agora  outro, diz Sorocaba. Antigamente, o sertanejo perdia a mulher e fazia uma letra chorando as mgoas. Hoje ele diz: No me quer? No estou nem a, vou pegar a tua amiga, resume Aurlio.
     O avano do sertanejo universitrio, no entanto, no necessariamente se traduz em ameaa aos cones j estabelecidos. Tome-se o caso de Zez Di Camargo, que est para a nova gerao de artistas sertanejos como Roberto Carlos esteve para os romnticos dos anos 70. Mais que um dolo, ele  um modelo a ser seguido. Meu irmo e eu fomos os responsveis por tirar o gnero do gueto, diz Zez, imodesto assumido, nos camarins do Teatro Guara, em Curitiba. As fs da dupla so, com o perdo do pleonasmo, fanticas: acampam em frente aos hotis em que eles se hospedam, gritam, choram, tatuam-se com imagens dos dolos. Linda, so 4 horas da manh, vai descansar um pouco em casa, recomenda a uma delas Arleyde Caldi, assessora da dupla por mais de duas dcadas de trabalho incontornavelmente incansvel (note-se que ela est l, no meio da madrugada, para delicadamente enxotar a admiradora persistente demais: viver no universo sertanejo, seja um membro da equipe, seja um artista consagrado, significa trabalhar, trabalhar e trabalhar  e ento trabalhar mais um pouco). Se Zez adora a comoo, Luciano  seu oposto.  reservado, leva a mulher aos shows (ela fica sentadinha num canto do palco) e desaprova as cantadas. No camarim do Credicard Hall, em So Paulo, irritou-se quando uma moa lhe fez uma proposta indecorosa. Sou um homem casado, e ela me tratou feito um prostituto, indigna-se. Outros veteranos adeptos do estilo discreto so Bruno & Marrone. Manter-se acessvel e dispensar carinho s fs  o primeiro mandamento do artista sertanejo, e a dupla o segue religiosamente  mas Bruno se incomoda quando o afeto vira assdio. Eu queria tanto poder tomar uma cerveja e comer um churrasco tranquilamente..., suspira. Bruno & Marrone, alis, tm uma dinmica curiosa. Embora sejam amigos. Bruno no perde uma chance de provocar o parceiro. Marrone, voc no est falando coisa com coisa. No foi isso que eles perguntaram, disparou, no meio de uma entrevista.
     Com o Brasil conquistado, faltava ganhar o mundo  e Michel Tel, inesperadamente, internacionalizou o sertanejo com o hit Ai, Se Eu Te Pego, cuja coreografia foi imitada em campos de futebol, baladas e salas de estar da Espanha  Holanda e  taciturna Sua  e tambm na plateia das dezenas de shows do artista em pases estrangeiros. Tel, porm, preserva o jeitinho matuto do artista que chegou  gravadora Som Livre vestindo roupas perto de virar farrapos  o que motivou a ento gerente de marketing da companhia a lev-lo a um shopping center e dar-lhe um literal banho de loja. Tenho muitos dolos no mundo sertanejo, mas sabe que no me aproximei deles por medo de me decepcionar? Prefiro ficar com os discos, diz, enquanto leva a reportagem de VEJA para casa em seu Porsche. Tel era cantor de um grupo de forr modernoso chamado Tradio. A gente sertanejou o Michel na carreira-solo, diz Tefilo, irmo e empresrio do cantor. No estilo Michel Tel, o sertanejo  apenas um detalhe. Ele faz msica para balada, com forte influncia de dance music e covers de Tim Maia e Adele. Um dos primeiros sucessos de sua carreira, Fugidinha, era um pagode romntico. E Ai, Se Eu Te Pego, um forr acaipirado. De incio, os irmos Tel no se mostraram muito confiantes na faixa. Eles achavam que ela no iria fazer sucesso. Eu disse: Michel, a cano  forte, voc vai ver, conta Dudu Borges, produtor do cantor e hoje um dos mais requisitados do mercado. Ex-tecladista de grupo gospel  foi dispensado por suas ligaes com artistas seculares , ele trabalhou com a dupla Bruno & Marrone e ser responsvel pelos prximos discos de Fernando & Sorocaba e Luan Santana. Borges tambm est cotado para produzir o novo lbum de Zez Di Camargo & Luciano. Michel, porm, ainda no tem seu prprio jato  nem sequer um turbohlice. A gente vai de voo de linha mesmo. E, se rolar um assdio das meninas, ele atende, diz o irmo e empresrio.
     Outro destaque da nova gerao, Fernando & Sorocaba esto mais para astros do rock que para artistas sertanejos. Os shows da dupla so repletos de efeitos que fazem a alegria dos amantes de hard rock, como solos de guitarra (cortesia de Fernando, confortvel no papel de guitar hero) e fogos de artifcio. As vezes soltam at releituras sertanejas de Pais e Filhos, do Legio Urbana, e Sweet Child O Mine, do Guns N Roses. Quando receberam a reportagem de VEJA, em Apucarana (PR), tinham acabado de chegar de So Paulo de carro. O aeroporto estava sem teto. A gente parou o avio em Sorocaba e pisou fundo at aqui, diz Fernando. Passado o cansao, subiram ao palco e tocaram por uma hora e quarenta minutos. Em seguida, foram de carro at Londrina. De l, voariam rumo a Curitiba, para outra apresentao. Sorocaba  um compositor requisitado. Foi o maior arrecadador de direitos autorais de 2011, e suas msicas foram gravadas por Luan Santana e Chitozinho & Xoror. Minhas criaes so simples. Mas tambm sei fazer canes complicadas, que poderiam ser gravadas por um Z Ramalho, orgulha-se. Ele tem um escritrio, onde administra a carreira das duplas Thaeme & Thiago e Marcos & Belutti, alm do grupo de samba pop Inimigos da HP.
     Para chegar ao Olimpo sertanejo ocupado por essas duplas, entretanto,  preciso antes engolir muita poeira na estrada. O cantor Israel Lucero  um desses aspirantes ao sucesso. No momento, ele gasta mais do que ganha. Seu empresrio investe cerca de 50.000 reais mensais para mant-lo em So Paulo e incrementar seu guarda-roupa. Mas seu cach est na casa dos 18.000 reais, e se preciso ele d desconto. Lucero e seu empresrio se locomovem num carro ganho numa permuta, ocupam camarins improvisados em tendas, com cadeiras de plstico bambas, e distribuem um CD promocional. Tenho talento para chegar ao topo, aposta o tenaz Lucero.
     A msica sertaneja  uma realidade no showbiz brasileiro desde 1990, quando as duplas Chitozinho & Xoror, Zez Di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo atingiram o auge de sua popularidade  e os ataques ao gnero se intensificaram. A moral da cano sertaneja era conservadora demais para os crticos, que desdenhavam dela; e a tica de trabalho interiorana dos artistas, de que quem trabalha  que tem de mandar no seu trabalho e ficar com os proventos dele, sempre deixou a indstria fonogrfica meio de escanteio nesse jogo. As tentativas de derrubar o gnero prosseguem: recentemente, um novo levante do samba e a onda de sonoridades do Par foram apregoados como remdios contra a turma da bota e do chapelo. Balela. Haver, sim, uma seleo natural dos artistas. Quem tiver talento permanecer e certamente influenciar uma nova onda de neocaipiras. Mas que no se espere o fim de um gnero que h mais de trs dcadas frequenta as paradas e est consagrado na realidade nacional. O Brasil, de fato, virou um grande serto.

FERNANDO & SOROCABA
NADA AO ACASO
Fernando Fakri de Assis, o Sorocaba, formou-se em agronomia, mas buscou o sertanejo por vocao  e por ambio. Ele faz o perfil do artista-empresrio, sempre planejando cada passo da carreira, a comear pelo nome da dupla. No incio, fez par com um cantor chamado Santiago, que topou mudar o nome para melhor se adequar  marca. Seis anos atrs, Santiago foi trocado pelo cantor e guitarrista Fernando Zorzanello Bonifcio. Com efeitos especiais e solos de guitarra, as apresentaes de Fernando & Sorocaba esto mais para show de pop rock do que para toada sertaneja. A dupla atia os hormnios das jovens fs  em um show em Curitiba, a reportagem de VEJA viu trs delas ser enxotadas dos bastidores por Sandra Reis, misto de camareira, secretria e mezona. Sorocaba foi o campeo de arrecadao de direitos autorais em 2011, mas a dupla ainda tem dificuldades em certos estados. Na Bahia, Zez Di Camargo e o Bruno no podem nem sair do hotel. J o Sorocaba pode desfilar  vontade que jamais ser importunado, brinca um empresrio.

ZEZ DI CAMARGO & LUCIANO
GIGANTES GENTIS
Em outubro de 2012, a dupla Zez Di Camargo & Luciano fez dois shows com casa lotada no Teatro Guara, em Curitiba. Foi nesse mesmo local que, um ano antes, os irmos tiveram um vexaminoso desentendimento no palco, que culminou com Zez fazendo um show-solo (Luciano mais tarde creditaria o incidente ao consumo de usque com remdio para dormir). A burrada que cometi est fazendo aniversrio. Mas hoje vou cantar at o fim, brincou Luciano. Cantou mesmo: por duas horas e quarenta minutos, o pblico ouviu sucessos como No Dia em que Sa de Casa e a inevitvel  o Amor. Com 36 milhes de discos vendidos, a dupla fez muito pela consolidao do sertanejo como um respeitvel gnero popular. Apesar de serem gigantes do showbiz, eles so tratados com rara intimidade pelo pblico. Em Curitiba, quando Zez anunciou que a prxima cano seria sobre um casal em crise, uma f maliciosa gritou o nome da ex-mulher do cantor: Essa voc fez para a Zil.

BRUNO & MARRONE 
 PROVA DE MODAS
Em meados dos anos 90, a dupla Bruno & Marrone foi menosprezada por um executivo da indstria do disco. Para botar banca, o sujeito exibiu discos de outro sertanejo e de um pagodeiro que faziam parte de seu cast: Este  a minha galinha dos ovos de ouro, o outro  a menina dos meus olhos. E ofereceu a Rubens Junior, empresrio da dupla, um contrato que nem sequer cobria os gastos de produo do disco  e que foi prontamente recusado. O tal executivo sumiu do mundo fonogrfico, mas Bruno & Marrone continuam firmes e fortes. Venderam mais de 9 milhes de discos e fazem uma mdia de vinte shows por ms, deslocando-se em um avio comprado do apresentador Ratinho. A dupla  das poucas da velha guarda que conseguem dialogar com a plateia do sertanejo universitrio, mais afeita a temas de balada do que a canes de amor. A gente acompanhou a evoluo do sertanejo. Nunca tivemos receio de nos aproximar do pop, diz Bruno.

ISRAEL LUCERO
O COMEO  DIFCIL
A primeira cano que Israel Lucero, gacho de So Borja, arranhou ao violo foi Garon, hino brega do pernambucano Reginaldo Rossi. Eu tinha 4 anos. Dois anos depois, eu j cantava Leandro & Leonardo, lembra o precoce Lucero, hoje com 19 anos. Em 2010, ele venceu um reality show da Rede Record que revelava novos talentos. Mas permanece por ser descoberto: gravou um CD que foi mal divulgado, e a empresa que vendia seus shows pouco fez para alavancar sua carreira. Lucero est recomeando do zero. Voc no  o rapaz que ganhou aquele concurso?, pergunta a vendedora de uma lanchonete em Navegantes (SC), onde o cantor e a reportagem de VEJA fizeram uma parada a caminho de So Paulo. Porm em Itaja, cidade de Santa Catarina para onde Lucero e famlia se mudaram cinco anos atrs, ele virou celebridade local. Foi escolhido para abrir a apresentao de Zez Di Camargo & Luciano na festa de aniversrio de Navegantes. Zez foi um dos poucos artistas a quem eu pedi autgrafo. Ele brincou comigo, disse para eu ir jantar na casa dele, lembra

MICHEL TEL 
NA SRVIA, EM PORTUGUS
No ano passado, Michel Tel pagou 1,5 milho de reais por uma cobertura na Zona Sul de So Paulo. Mas raramente chega a dormir trs dias seguidos l. No d. Estou sempre em turn. A culpada pela escassez de tempo livre  Ai, Se Eu Te Pego, um forronejo (mistura de forr com sertanejo) que foi primeiro lugar em mais de quarenta pases. Toquei na Srvia, e as pessoas cantavam em portugus, emociona-se Tel. Egresso de uma famlia de classe mdia  seus pais tm lojas de roupas em Campo Grande , fala com orgulho das agruras do incio: Toquei em casas com cho de terra batida, levando choque do microfone. Depois de uma passagem pelo grupo Tradio, ele foi contratado pela Som Livre em 2010. Tel no  um sertanejo ortodoxo. Ainda que, nos shows, interprete Saudade da Minha Terra, do mineiro Goi, ele no  muito ligado aos temas telricos. O sertanejo  o novo pop. Os fs querem desde canes romnticas at msicas danantes, diz. A galerinha que cantava Legio Urbana hoje quer ouvir Ai, Se Eu Te Pego.

LAS
APROVEITANDO A BRECHA
O sertanejo  um meio masculino. D para contar nos dedos as artistas que venceram essa barreira  as pioneiras Inezita Barroso e Irms Galvo, a compositora e cantora Roberta Miranda, e Sula Miranda (nenhum parentesco), que foi mais um fenmeno de marketing que um sucesso de vendas. O sucesso da cantora Paula Fernandes, em 2011, ajudou a baixar o nvel de testosterona nesse universo. Ela abriu espao para que meninas como eu possam pensar numa carreira, diz Las, cantora de 22 anos. Mas meu estilo  diferente do dela. Fao uma linha sertaneja pop romntica. Las no  propriamente uma novata. Ela canta desde pequena, mas com outro nome e estilo: era Yasmin Lucas e fazia pop infantil. A repaginao de sua carreira se deu h dois anos, quando se associou ao guitarrista e produtor Marco Andr. Las gravou um CD variado, no qual se percebem influncias do pop e do rock. Atualmente eles negociam com gravadoras para comercializar o lbum. Mas no paro de compor. Meu prximo disco est praticamente pronto.


